A segunda conchinha era bem maior do que a outra, mesmo assim, possuía detalhes minuciosos, como uma obra pontilhista. Impressionante. Ela ganhava tons de vermelho à medida que os pontinhos se aproximavam das extremidades, deixando para trás um amarelo sem graça, desbotado, que só estava ali para preencher o vazio da pintura. Mesmo assim, uma obra de arte!
No seu interior, sobre o branco, havia três faixas de cores pequenas: duas de vinho e uma de amarelo, como a bandeira da Espanha, fato pouco importante, já que a expectativa deixava o ar nebuloso, anseio pelo nascimento de Vênus.
Sua forma era irregular, uma beleza a parte… Se nas conchas maiores é possível ouvir o mar, na segunda conchinha o mar estava visível, tamanha a perfeição de seus vincos. Por isso, a sua parte externa era inteira áspera, uma menção especial para o seu lado esquerdo: tinha inúmeros acidentes sobressalentes às dobrinhas.
Mar revolto que se choca contra as pedras do lado esquerdo, diria um poeta.
O rapaz tentou conversar com a segunda conchinha, buscava mais informações:
- Oi, tudo bem?
Era de se esperar… Ele não obteve resposta. Como uma conchinha tão grossa poderia responder? Ele compreendeu e desistiu da conversa:
-Arrogante!
Seguiu sua análise, o rapaz precisava escolher uma entre as duas selecionadas. Buscava a conchinha d’mar…
A primeira era discreta, talvez pelo tamanho, mas tinha uma beleza singular capaz de chamar atenção em meio a milhares de outras conchinhas. Era pintada sobre branco por dois tons de marrom, que formavam, intercalados, o desenho de raios de luz com a intensidade de uma sombra fresca. Jovem, timidamente brilhante, ainda guardava em si todo o brilho imponente, todo o brilho infinito. Era sol ascendente disfarçado de concha!
No seu interior havia um branco pleno. Todas as cores reunidas. Completa. Vênus não apontava, mas estava lá, no interior da concha. A pureza do branco a continha.
Sua forma era objetiva, atendia de pronto as características de uma linda conchinha. A textura era impecável, que de tão lisa chegava a ser macia. Como a superfície de uma lagoa.
Lagoa pura sob a luz do amanhecer, diria um poeta.
O rapaz tentou conversar com a primeira conchinha, também buscava mais informações:
- Oi, tudo bem?
Era de se esperar… Ele não obteve resposta. Como uma conchinha tímida poderia responder? Ele compreendeu e se decidiu:
-Você é a escolhida!