Poço de Praia

Não deixe de ler Quase Nada, meu último texto.

Quase Nada

A moça andava de um lado para o outro na plataforma da rodoviária. Às vezes mordiscava o canudinho do suco que levava consigo. Um charme à parte. O rapaz, percebendo que o copo da moça estava vazio, postou-se ao lado da única lixeira mas, teve que esperar para abordá-la. 

A pequena não fazia catwalk, nem usava roupas extravagantes, mas qualquer um diria que ela desfilava como se fosse uma top model. Sua beleza era suficiente para promover, involuntariamente, um desfile natural e sincero que atraia a atenção de todos. 

Passaram-se cinco minutos. Ela, finalmente, decide jogar o copo de plástico fora e vai até o lixo.

-Qual seu nome? - o rapaz não hesitou.

Ela respondeu sem entender muito bem o que estava acontecendo, e não importa: o nome revelado no susto era uma informação importante para o rapaz seguir. Ele sabia quase nada: o suficiente para continuar o diálogo. Sem nem se apresentar, emendou outra pergunta. 

-Você parece um pouco apreensiva. - para ele, aquelas mordiscadas significavam algo além de um simples charme, eram sinal de impaciência. - Está tudo bem? - queria mais informações. 

-Mais ou menos. É que eu fui comprar a passagem e aí…- a pequena descreveu o acontecido. - Estou plantada aqui por duas horas. Não aguento mais esperar!

O rapaz ficou indignado. Não era possível! Duas horas?! Estava indignado consigo mesmo: ele poderia tê-la encontrado antes, mas decidira aguardar o horário da sua viagem em outro lugar, numa sala mais confortável. Mal sabia ele que o conforto estava ali, na plataforma de embarque, durante as últimas duas horas, e agora, prestes a partir.

-Que falta de sorte.

-Verdade - ela se animou após ser confortada.

-A nossa.

-O quê?

-Que falta de sorte a nossa!

-Não entendi. Você também perdeu seu ônibus?

-Não, não. É que poderíamos ter nos encontrado antes… Eu estava por aqui.

Depois da indireta caprichosa, alguns segundos se passaram em silêncio. Um fitando o outro. Era um estudo minucioso de sinais: uma arrumada no cabelo, uma ligeira lambida nos lábios, uma mão no bolso… “O que isso significa?” eles se questionavam por cada gesto. O rapaz deixou transparecer sua cara de bobo, já não podia pensar. Estava encantado. A moça achou graça e respondeu com um sorriso cativante. Já não se fitavam, mas sim flertavam. 

-Pra onde você vai mesmo? - ele lança para retomar o controle.

-Vou pegar um ônibus pra longe daqui! - ela se diverte com o contra-ataque e assume o manche da conversa.

- Nossa! Então talvez a sua estrada cruze o meu caminho.

-Espera aí! Isso não é uma música?

Ele não sabia de onde tinha tirado aquela frase, possivelmente de um livro, também desconfiava ter sido um déjà vu. A única certeza é que fora uma expressão oportuna, pois, antes de ser pronunciada, o diálogo caminhava para fora do seu controle.

- Eu acho que sim, uma música - concordou com a moça para mudar o assunto. - Mas então, eu quis perguntar se você ia pra algum lugar agora.

-Até meu ônibus chegar, não.

-Topa tomar um café comigo?

-Pode ser.

Eles não tiveram tempo para o café, preferiram ficar conversando. Começaram falando sobre a faculdade, passaram pelas profissões e terminaram cantarolando alguma música. Assim que retornaram para a plataforma de embarque ela o guiou, apontando um ônibus.

-Foi bom te conhecer - o rapaz iniciou a despedida.

-Aliás, qual é o seu nome? - ela pergunta - Seu nome no facebook. 

Ele respondeu e completou com mímicas, tentava imitar a sua pose na foto do perfil. Ela riu enquanto digitava no celular.

-Ok, vou te procurar por lá - guardou o aparelho. - Você é muito legal!

Ele, embaraçado, retribuiu o elogio e se despediram com um beijo de “é um pouco mais pro lado”:

- Boa viagem! - Foi a última coisa que ele disse.

O rapaz ficou a observá-la: acompanhou, com os olhos, seu último desfile. Enquanto ela entregava a passagem para o motorista, ele cruzou os braços e afrontou três cafajestes descarados. Não aturava a falta de escrúpulos alheio. O primeiro, de braços cruzados, o segundo, meio boquiaberto, e o terceiro, que descia a escada até tropeçar no último degrau, foram devidamente intimidados. Caso algum deles viesse tirar satisfação com o rapaz, ele diria com a mesma postura: “Eu não tenho ciúmes, apenas prezo pelo respeito!”. 

Depois de conferida a passagem, ela entrou no ônibus. Neste momento o rapaz se concentrou na calça da moça:

-Coisa linda!- sussurrou para si.

Se fosse acusado de hipocrisia pelos três que repreendera, rebateria: “Eu não sou cafajeste como vocês, apenas botei reparo na calça marrom. Hipster, eu diria”, a calça era marrom de fato. O rapaz fechou a cara e olhou os desrespeitosos, já eram sete homens, os três mais outros quatro. “Cafagestes! Desocupados!”, ele pensou. E pensou melhor: “Já que eu não posso derrotá-los…”, e se virou para o ônibus novamente. Oito olhares acompanharam o embarque da moça que desapareceu dentro do ônibus.Ele ainda procurou através do vidro, mas não a encontrou. Buscou mais uma vez, agora pelo outro lado, em vão.

Mesmo assim, acenou com a mão na hora da partida.

Passaram-se alguns instantes e com a mesma impaciência que fora da moça, o rapaz ia de um lado para o outro da plataforma pensando: “Como eu fui imbecil! Deveria ter dito para ela que eu a achava linda!”. Dirigiu-se para o mesmo lixo e jogou o seu chiclete. Olhou para os lados com uma esperança infantil. Suspirou:

-Amor que chega sem dar aviso não é preciso saber mais nada.

 

Não deixe de ler Sampa, meu último texto.

Sampa

Trânsito parado numa noite chuvosa em São Paulo. As luzes vermelhas piscavam e se multiplicavam após atravessar o para-brisa repleto de gotas de chuva. Para diminuir esses raios nervosos e melhorar a visão do taxista, palhetas incansáveis trabalhavam juntas. Quanto ao estresse, o rádio se encarregava de acalmar o taxista.

Ele não conseguiria imaginar seu trabalho sem o rádio. No taxi, o objeto falante é o seu companheiro de todas as horas, ao contrário das palhetas que não têm utilidade em dias de sol.

Seu nome é Jorge, conhecido pelos amigos como “o imbatível das rodas de discussão”, adora ouvir notícias durante o expediente, por isso é uma pessoa bem informada que justifica seu epíteto dizendo modestamente:

-Não faço nada de mais. Eu só tenho uma relação íntima com o meu rádio.- E cai na risada durante algum happy hour.

Tal relação com seu “companheiro” é intensificada na cena que descrevo: na avenida paira tensão, dentro do táxi flui música. Jorge ouvira que a cidade estava um caos, as principais vias tinham sido alagadas. Como não lhe restara caminhos alternativos, decidiu mudar a frequência e sintonizou a sua rádio de músicas favorita. Conseguiu, assim, se manter sereno.

Muitos minutos e poucos metros depois, o programador coloca a música preferida de todo bom paulistano, não fugindo à regra, Jorge aumenta o volume para escutar “Sampa”, do Caetano Veloso. Se alguma ponta de nervosismo ameaçava ferir o taxista, esta foi repelida pelo cantor amador que acompanhou o rádio enquanto dirigia. Jorge cantou toda a música e com a emoção à flor da pele, se deu o direito e parodiou o último verso :

-E os novos baianos te podem curtir de “canoa”.

O trânsito continuou parado e o motorista seguiu cantando.

Não deixe de ler Águas de Março, meu último texto.

Águas de Março
Os primeiros raios surgiam como pincéis dourados entre os nimbos que haviam castigado a região de Copacabana. A tempestade era esperada por todos: as águas de março fechavam o verão.

O tempo quente, abafado e úmido se estendia para dentro do apartamento de Vera, seus cabelos ruivos se encontravam molhados, dando um aspecto selvagem e traiçoeiro para aquele rostinho meigo. Não, não fora a chuva que a molhara, o motivo que explica o estado do seu penteado é outro e ele segura sua mão nesse momento. Jorge foi a causa.

Muito se fala sobre paixões de verão, mas são poucas as histórias nas quais o casal se envolve num amor tão intenso como o caso de Vera e Jorge.

Ele, engenheiro, estava no Rio a trabalho e voltaria para Portugal assim que terminasse sua empreitada; ela, dentista, morava sozinha na cidade maravilhosa e costumava sair nos finais de semana. Foi numa dessas saídas que Vera encontrou Jorge. Aquele momento no qual se estabelece o amor à primeira vista foi coisa de filme, mais ou menos assim: em meio ao alvoroço da boemia carioca o silêncio sintonizou os dois, ele estava sentado segurando a carteira aberta, olhava a fotografia de uma mulher enquanto ela percebia a lágrima que escorria do seu rosto. Assim, Vera conheceu o português e seu coração carente.

Desde então passaram a se encontrar diariamente na casa da ruiva, haviam se apaixonado, e essa paixão proporcionava ótimos momentos para os dois.

Entretanto, os dois ainda não sabiam que a tragédia deste mundo é que todos são sozinhos e Vera só foi constatar essa verdade ao segurar a mão de Jorge no momento seguinte a tempestade. A separação era iminente. As águas de março também anunciavam o fim dos tempos do estrangeiro no Brasil.

Deste modo se despediram: sem soltar sua mão, Jorge deu o último beijo em Vera e a deixou no sofá; antes de sair o homem ainda observou seu rosto no espelho, conseguiu notar o grisalho que lhe surgira durante o verão; virou; saiu; fechou a porta.

Vera não deixou o sofá naquele dia, abraçou uma almofada e dormiu.

Dormiu…

Pela janela: uma imensa árvore, raízes esparramadas pelo ar, folhas ainda verdes. Ouve-se um grito, um pedido de socorro se propagava na copa da árvore caída, vinha de dentro do ninho fechado do joão-de-barro. O cantar feminino dizia: 

-É o fim do caminho…é um pouco sozinho…

Conchinha d’Mar…

 

A segunda conchinha era bem maior do que a outra, mesmo assim, possuía detalhes minuciosos, como uma obra pontilhista. Impressionante. Ela ganhava tons de vermelho à medida que os pontinhos se aproximavam das extremidades, deixando para trás um amarelo sem graça, desbotado, que só estava ali para preencher o vazio da pintura. Mesmo assim, uma obra de arte!

No seu interior, sobre o branco, havia três faixas de cores pequenas: duas de vinho e uma de amarelo, como a bandeira da Espanha, fato pouco importante, já que a expectativa deixava o ar nebuloso, anseio pelo nascimento de Vênus.

 Sua forma era irregular, uma beleza a parte… Se nas conchas maiores é possível ouvir o mar, na segunda conchinha o mar estava visível, tamanha a perfeição de seus vincos. Por isso, a sua parte externa era inteira áspera, uma menção especial para o seu lado esquerdo: tinha inúmeros acidentes sobressalentes às dobrinhas.

Mar revolto que se choca contra as pedras do lado esquerdo, diria um poeta.

O rapaz tentou conversar com a segunda conchinha, buscava mais informações:

- Oi, tudo bem?

Era de se esperar… Ele não obteve resposta. Como uma conchinha tão grossa poderia responder? Ele compreendeu e desistiu da conversa:

-Arrogante!

            Seguiu sua análise, o rapaz precisava escolher uma entre as duas selecionadas. Buscava a conchinha d’mar…

 

            A primeira era discreta, talvez pelo tamanho, mas tinha uma beleza singular capaz de chamar atenção em meio a milhares de outras conchinhas. Era pintada sobre branco por dois tons de marrom, que formavam, intercalados, o desenho de raios de luz com a intensidade de uma sombra fresca. Jovem, timidamente brilhante, ainda guardava em si todo o brilho imponente, todo o brilho infinito. Era sol ascendente disfarçado de concha!

No seu interior havia um branco pleno. Todas as cores reunidas. Completa. Vênus não apontava, mas estava lá, no interior da concha. A pureza do branco a continha.

            Sua forma era objetiva, atendia de pronto as características de uma linda conchinha. A textura era impecável, que de tão lisa chegava a ser macia. Como a superfície de uma lagoa.

Lagoa pura sob a luz do amanhecer, diria um poeta.

O rapaz tentou conversar com a primeira conchinha, também buscava mais informações:

- Oi, tudo bem?

Era de se esperar… Ele não obteve resposta. Como uma conchinha tímida poderia responder? Ele compreendeu e se decidiu:

-Você é a escolhida!

 

Beatles malditos!


Beatles malditos! Tudo começou com vocês.

           As pessoas que são FÃS INCONDICIONAIS– aquelas que tiram milhares de fotos, tomam autógrafos nas situações mais incômodas, memorizam todos os detalhes da vida e ficam no encalço de seu artista preferido- não sabem, mas estão cometendo os piores crimes à ARTE musical. Não há nada que justifique tais ações. Vocês entenderão…

           Os garotos de Liverpool eram excelentes com o que faziam: MÚSICA. Mas, como se não bastasse, acrescentaram estilo, pegada, charme ou qualquer coisinha (não sei ao certo o que foi) que chame atenção e pronto. Eis a fórmula:

BOA MÚSICA + COISAS QUE CHAMAM ATENÇÃO = SER DONO DO MUNDO

          Os Beatles foram os donos do mundo.

           A população da época sacava fotos, pedia autógrafos, decorava a vida e ficava atrás desses senhores do planeta. Foi assim por muitos anos, até que… Eles acabaram. Os Beatles acabaram.

          Acabaram, mas seus fãs NÃO!

          Você, jovem, já pensou sobre o que aconteceu nessa época? Não?! Então entendam a situação mundial após o fim dos Beatles… A Terra passava por um período de extrema desordem, tal uma anarquia. As pessoas, todas viciadas, precisavam idolatrar alguém. Não havia centralização de poder. A população estava carente. Todos carentes.

           Careciam um ÍDOLO.

           Foi nesse contexto que surgiu a nova doutrina:

CARÊNCIA DE IDOLOS + COISAS QUE CHAMAM ATENÇÃO = SER DONO DO MUNDO

            Com isso torna-se dispensável compor boas músicas, bastava um charminho para saciar a carência de ídolos e ocupar o posto inatingível de DONO DO MUNDO (é claro que a fórmula se popularizou, portanto ninguém mais conseguiu dominar todo o planeta como os Beatles fizeram. “Uma partezinha para esse ‘artista’ aqui, outra parte para outro ali, um pedaço maior do mundo para um acolá e assim por diante”).

            O tempo foi passando e na equação a variável “COISAS QUE CHAMAM ATENÇÃO” valorizou-se pela alta concorrência, ou seja, quanto maior a sua extravagância, maior o seu pedaço do mundo.

            - Esse cara ta doido! O que eu- fã incondicional- tenho há ver com toda essa história? Como que saio deste texto? 

            Calma! A culpa é sua. Simples assim. Como tinha dito: o mundo passa por um momento de descontrole. Tanto os artistas quanto vocês não sabem o que devem fazer. Os artistas não sabem por que eles apenas produzem o que o público gosta (tudo que segue a nova fórmula). Vocês não sabem o que fazem por que gostam de tudo o que é produzido.

            Se nós- seres humanos que não pretendemos iniciar uma carreira artística- continuarmos adorando todos esses produtos, a arte não evoluirá. Caso não tomarmos alguma iniciativa, nossos netos ouvirão músicas com as mesmas características das que ouvimos hoje, com algumas mudanças na cor do figurino, no corte de cabelo ou na dramaticidade da voz. MAS TUDO SERÁ IGUAL! Aposto que vocês não querem ser iguais a ninguém.

            Fã incondicionais, deixo a solução:

Não se conformem com a música que é oferecida para vocês.          

 Contestem! –assim acabará o lixo produzido.

Escrevam e-mails sobre o produto ao seu artista.

Critiquem! –com isso a música evoluirá.

Estude a composição do seu estilo, a origem.

Busque! – deste modo conhecerá ótimas músicas.

Reúna argumentos contra estilos musicais.

Banalizem! –façamos uma corrente do bem.

            Beatles malditos! Hoje a população necessita alguém para bajular. Moda criada por vocês. Esse costume deve acabar…exceto, é claro, quando algum artista conseguir reunir novamente a música boa e as coisas que chamam atenção.

            Depois dos Beatles tiveram outros fenômenos musicais. Estes eram os que souberam utilizar todos os fatores corretamente, ou seja, MUSICA BOA + COISAS QUE CHAMAM ATENÇÃO. Exemplos destes fenômenos são: Led Zeppenin (com seus cabelos quilométricos), AC/DC (com os chifrinhos do Amgus), Bon Jovi (com a pinta de pegador e de galã do vocalista), Guns n Roses (com a dancinha do Axl), Michael Jackson (com a revolução nos clips musicais), entre poucos outros.

            O ponto onde quero chegar é esse: Nada está perdido, as coisas só estão um pouco embaraçadas. Voltando a fórmula…

A oportunidade de fazer dinheiro fácil aproveitando a carência dos fãs potenciais pelo mundo deve ser substituída imediatamente pela música de qualidade. Só assim poderemos viver em um planeta verdadeiro, onde a arte recebe méritos enquanto o resto - que ilusoriamente pensa ser arte - é contemplado pelo resto de pessoas, o que  não tem autocrítica (um tipo especial que não deve ser classificada como “resto de pessoas ” é o de crianças com no máximo 12 anos de idade).

          O tempo passa e o resto artístico ainda é o resto (apreciado pelo resto da população, ainda maior). Porém, nos dias de hoje, esse resto ameaça ser toda a arte. Números virão à tona. Prazos para a extinção da música logo serão estabelecidos.

                                     Beatles malditos!

As Fumigas e o Berimbondo.

O fogo ardia na churrasqueira e nos olhos da mulher.

- Olhe as crianças, Danilo!

- Amor, que tem as crianças?

- Nosso filho destruiu o formigueiro e está matando todas as formigas com o Gabriel e o Pedrinho.

- Ah… Isso é coisa de moleque. Quando o primeiro tomar uma picada doída, todos irão parar com essa brincadeira.

- Que horror, Danilo!  

- Tem outra: essa carne já está quase no ponto…

- Vai cuidar das crianças que dessa carne deliciosa eu cuido. Ô, delicia!

Foi assim que o churrasqueiro largou a churrasqueira e foi salvar o formigueiro do Tranqueira.

-Tranqueirinha, meu filho… - jogou o pano sujo no ombro e cruzou os braços – O que você pensa que está fazendo?

-Papai… vem ver, papai. Olha só, eu sou o Godzila! Aruahh! – Com passos firmes o tranqueirinha dizimava as formiguinhas.

- Espeta essa fumiga. Mas com meu poder sultra sônico ela não escapa! – Assim que o Gabriel descarregava o inseticida ao redor, envenenando as formigas que tentavam fugir.

- Isso ai! Mata tudinho. – O Pedrinho incentivava.

-Acabou! Parem crianças!

- Viu papai? – Tranqueira perguntava com um sorriso no rosto e uma gota de suar na testa. – Viu o que fizemos?

- Filho, papai precisa te ensinar uma coisa… Vocês tiveram muita sorte por não terem sido picados por essas formigas até agora, mas se vocês continuarem, as formigas poderão se unir e picar todos vocês.

- Não papai… - disse cabisbaixo- Mas…

- Que nada! – Interrompeu Pedrinho.

- Agente somo supra poderoso! – Rebateu Gabriel.

- Mas as formiguinhas também são poderosas, só que a natureza deu para elas o poder da união. Quando elas resolverem usar esse super poder vocês vão perder essa briga rapidinho. Vocês entendem? – todos estavam meio confusos- É melhor vocês pararem com essa brincadeira. – concluiu Danilo.

- Mintira…

- Seu pai não sabe nada…

- Que chato você, estragou a brincadeira!

Danilo ficou decepcionado e tentou conquistar a confiança dos garotos de outra forma:

- Vem cá. Aqui pertinho. Eu vou contar um segredo para vocês…  As formiguinhas não podem morrer, porque elas são suas irmãzinhas.

- Mas eu sou filho único.

- Não, Gabriel. Todos nós somos filhos da natureza. Essa plantinha (passou a mão na grama), esse caracol (acariciou o bicho) e todas essas formiguinhas são os nossos irmãos. Porque somos filhos da grande Mãe Natureza.

- É mesmo tio Dan?!?

-Sim. Isso é verdade, por isso não devemos maltratar os animais…

Os três garotos estavam vidrados na história do Danilo, que não parava de dar exemplos bonitinhos pregando a proteção da fauna e da flora para as crianças.

- Então vocês prometem que não vão mais fazer mal para as formiguinhas? –Terminou o pai do Tranqueira.   

- Prometo. - Responderam os garotos.

Nesse momento, sem que os meninos percebessem, um marimbondo pousou em cima da camisa do Pedrinho. Por azar o inseto começou a caminhar em direção ao seu rosto.

- Pedrinho, não se mexa! – Ordenou Danilo, que percebeu o marimbondo subindo pelo corpo da criança.

Com um tapa o adulto jogou o bicho para baixo, como se fosse um ataque surpresa de uma cobra paciente. A vespa não se entregou e saiu voando, quando atingiu a altura da cintura do Danilo, ele chutou o inseto para cima, um chute parecido com aqueles do Betão no Corinthians. O infeliz animal ainda voava, embora estivesse caindo lentamente. Foi assim que o pai de Tranqueira aplicou o golpe de piedade, os garotos acompanhavam a cena com o mesmo entusiasmo em que assistiam o desenho Dragon Ball Z, já o comparavam com o Goku. Com a mão esquerda, Danilo mirou o marimbondo em movimento, com a direita ele pegou o pano sobre o ombro e se preparou para acertá-lo. Danilo fez do pano sujo em sua mão, uma espada Hattori Hanzõ e consegiu abater a vespa em pleno ar. 

Não preciso descrever a felicidade dos garotos depois da ação do pai, para eles foi simplesmente perfeito.

Antes mesmo do bicho cair o Tranqueira já pisava nele, assim como o Gabriel embebia-o em veneno.

- Tranqueira, seu pai é de mais! Morre berimbondo.

Danilo orgulhava-se do que acabara de fazer.

-Gabriel, jogue veneno nas fumiga agora! – ordenava o Pedrinho- Elas podem estar pedindo mais reforço aéreo.

- Vedadi. - respondeu Gabriel voltando para o formigueiro- Ô Dan, Você é muito espeto.

-Não mate as formigas Gabriel… – impediu o adulto.

- Mais você disse que as fumiga tem o poder da união. Elas se uniram até com os berimbundos. Imagine como será o próximo ataque…